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Alerta: ambientalista fala sobre o perigo das chuvas

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Fotos: Vinnicius Cremonez

Depois da maior estiagem registrada na Região Sudeste, em 2014-15, as chuvas voltam a cair. Para o ambientalista Arthur Soffiati, as chuvas do verão de 2015-2016 se devem ao progressivo aquecimento global, ao forte El Niño e às Zonas de Convergência do Atlântico Sul. Estas transportam água evaporada no Oceano Pacífico e na Amazônia para o sul do continente.

Já assistimos aos estragos causados pela chuvas no sul do Brasil, afetando o ambiente, as lavouras, as pastagens, as estradas, as pontes e as cidades. Agora, estamos assistindo a enchentes no Sudeste, no Centro-Oeste e até no Nordeste. As enchentes sempre acarretam estragos à economia e à sociedade, mas continuamos achando que a culpa é de Deus e de São Pedro. A nosso ver, não temos qualquer responsabilidade.

ambientalista arthur soffiatiSoffiati disse que é perigoso tentar resolver problemas durante longas estiagens, pois tendemos a buscar soluções imediatas. Foi o que vimos na estiagem de 2014-15. Houve uma corrida desenfreada para represar água em reservatórios, buscar água em pontos cada vez mais distantes dos locais de consumo, transpor bacias para conseguir o líquido, armazenamento em empresas rurais, industriais, comerciais e até em domicílios. A falta de água acabou causando problemas por estocagem, como, por exemplo, proliferação do mosquito transmissor da dengue, da chicungunya e da zica. É sempre muito perigoso tentar resolver problemas em situação de crise, pois, em lugar de soluções, os problemas tendem a se aprofundar.

defesa civil chuvasChuvas volumosas depois de longa estiagem são recebidas de braços abertos, mas também podem ser perigosas. Nas regiões montanhosas, elas causam deslizamentos (escorregamentos), geralmente causando desastres sociais, pois pessoas de baixa renda buscam áreas de risco para construir. Este tipo de desastre já está ocorrendo na Região Serrana do Rio de Janeiro e em vários outros pontos do Brasil.

“Nas áreas baixas, as águas dos rios transbordam e alagam as zonas rural e urbana. Para cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, apesar dos desastres, as chuvas trazem alívio. Para o interior e zonas rurais também. Contudo, as chuvas podem ser tão perigosas para o ânimo quanto as estiagens”, disse Soffiati.

Durante a longa seca de 2014-15, o governo estadual veio com a proposta de perfurar poços comunitários profundos. Esgotada a água de superfície, partiu-se para a água subterrânea. Esta solução resseca mais ainda o terreno. Falou-se em reflorestamento de margens, mas nada de concreto foi feito. Também nada se fez para reformar as comportas e limpar os canais. Nenhum empenho em promover a reservação de água além da proposta temerária de construir uma barragem no trecho final do Paraíba do Sul, obra que deve contar com estudos minuciosos de impacto ambiental.

A chuva chegou, os rios da bacia do Paraíba do Sul voltaram à normalidade e até transbordaram. A água não pode correr devidamente para os canais, como corriam antes das grandes obras feitas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). Assim, a água se perde no mar. Criou-se um sistema complexo que não funciona. O pescador fica sem peixe e o ruralista conta só com a água que cai do céu. Ambos veem escoar a seus pés água para o mar.

“Parece que não aprendemos com a prolongada estiagem. A cidade de São Paulo começa novamente a se comportar como se vivêssemos num mundo de abundância. O Brasil não é mais o país da inesgotabilidade. As chuvas vão passar. Uma nova estiagem pode assolar o Sudeste. Escassez e excesso provocam sintomas semelhantes a drogas: na escassez, sofre-se de abstinência e se busca a droga a qualquer preço. No excesso, ficamos entorpecidos e relaxamos sob o efeito da droga. Quando ele passar, voltaremos a sofrer crise de abstinência. O momento de buscar soluções mais estáveis é agora. Já tarda o Plano de Bacia do Paraíba do Sul. Não só precisamos que se conclua sua revisão, como carecemos urgentemente que ele seja implementado”, concluiu o ambientalista.

CHEIA PARAÍBA JANEIRO DE 2016 NOVA 3


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