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Festa que não acontece há 28 anos contribuiu para o desaparecimento da Lagosta de São Fidélis

festa da lagosta
Fotos: São Fidélis RJ / Vinnicius Cremonez

Hoje se completa 28 anos desde a última Festa da Lagosta de São Fidélis. No dia 29 de maio de 1988, fidelenses e turistas aproveitaram a tão famosa festa, que fez a cidade ser conhecida como “Terra da Lagosta”, pela última vez.

A festa, que era realizada no Horto Municipal, recebeu visitantes de várias cidades do Brasil e até estrangeiros. Com bebidas, frutas tropicais e a famosa lagosta, ela fez a alegria de muitos por anos.

O historiador ambiental, Arthur Soffiati, um dos defensores para o fim da festa, conta que noAMBIENTALISTA 12 princípio, devido à idade e a falta de consciência ambiental, achava que não haveria problemas quanto à comemoração, mas que a partir dos anos 70 começou a advertir que as festas eram danosas a lagosta. “O esforço de pesca foi reduzindo a população de lagosta até que na última festa eu já tinha uma consciência muito mais avançada, eu fazia parte de uma ONG e essa ONG ingressou com uma ação civil pública no judiciário. Houve uma polarização entre as pessoas do Centro Norte Fluminense para a Conservação da Natureza, que é a ONG da qual fazia parte, e as pessoas daqui de São Fidélis. Foi uma coisa antipática da nossa parte, mas foi uma coisa necessária.”

Ele explica que a própria lagosta depende também de museu-5outros municípios para poder se reproduzir e que é impossível fazer a criação da mesma em cativeiro porque a espécie é a mais rústica, mais silvestre e mais agressiva que existe.

Já o pescador Domingos José Afonso, conhecido como Dominguinhos, conta que a Festa da Lagosta foi importantíssima para a cidade e que para trazer o turismo é preciso fazer um trabalho que não prejudique a natureza. “A Festa da Lagosta deu nome a cidade, nós ficamos vários anos com o nome lá em cima, no turismo. São Fidélis precisa ver que o turismo ainda é o único caminho para o nosso município, mas nós temos que criar meios para que o povo venha de fora e traga dinheiro, mas através de um trabalho sólido, bem executado, sem atingir o meio ambiente e a ninguém.” Afirmou.

dominguinhos 2Sobre a pesca excessiva da lagosta, Dominguinhos diz: “Eu tive o prazer de acompanhar um casal argentino, foi a última festa no horto e ele disse que para ele era a melhor festa do Brasil, porque era uma loucura. Você chegava lá 21h da noite e ficava até às 4, 5h e se enlouquecia porque o que você tinha de fartura, mas nós não pensamos na reprodução. Pescávamos, fazíamos a festa na época que estava em cima do pico da desova, então foi o que aconteceu, a lagosta foi praticamente quase a extinção.”

Para ele, se os pescadores protegessem e fizessem uma auto fiscalização, seria possível realizar a festa novamente. “Nós tínhamos que proteger, pescar uma vez só no ano. Se deixasse para pescar no inverno, um mês só, o pescador ser o próprio fiscal, faria festa todo ano para 2 mil pessoas, valor que daria a São Fidélis aquele crédito de Terra da Lagosta.”

Dominguinhos também fala da importância do Rio Paraíba do Sul, que dá sustentos a muitos pescadores. “Esse rio é minha propriedade, sem divisa e sem porteira. Foi desse rio que eu tirei o pão, para criar minha família. Foi desse rio que eu tirei educação para os meus filhos. Hoje eu sou um pai, tenho o maior orgulho dos meus filhos, porque eles entenderam o que eu disse a eles: – Filhos, não sejam igual ao seu pai, seu pai é analfabeto, fiz parceria com a natureza e deu certo. Eu tinha vontade de ver cada um de vocês com um canudo de papel e todos os três me presentearam com um canudo de papel. Então, eu brigo, luto e morro por esse rio, porque foi ele que me deu essas condições e dá a muitos pescadores. Esse rio é muito importante para mim, não é demagogia, é a realidade”.

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