segunda-feira , 20 janeiro 2020

Iphan vistoria área onde ossos de escravos voltaram a aparecer, na Praia de Manguinhos Local é reconhecido como sítio arqueológico, por se tratar de cemitério de negros escravizados; ossadas voltaram a aparecer com as ressacas registradas no final de novembro

Local é reconhecido como sítio arqueológico, por se tratar de cemitério de negros escravizados; ossadas voltaram a aparecer com as ressacas registradas no final de novembro

No final do mês de novembro, ressacas registradas no município de São Francisco de Itabapoana, no litoral Norte Fluminense, desenterraram fragmentos de ossos desarticulados do sítio arqueológico da Praia de Manguinhos. O local é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como um sítio arqueológico, e seria um cemitério de escravos. Assim que foi informado, o Iphan solicitou à prefeitura providências emergenciais para proteção do referido bem, como o isolamento provisório da área, a sinalização do local e a orientação para a comunidade sobre a importância de não tocar ou coletar os ossos. Ao SF Notícias, o Iphan informou que as medidas, que visam evitar maior descaracterização e descontextualização do sítio arqueológico, foram prontamente atendidas.

Fotos: Reprodução

Na última terça-feira (10/12) técnicos do Iphan realizaram vistorias no local. Na ocasião, eles se reuniram com representantes da Prefeitura para orientarem sobre os próximos passos. “Para serem efetivas, as providências devem contar com a mobilização dos demais responsáveis pela área na qual está localizado o sítio arqueológico, sejam estes particulares ou instituições gestoras do setor público. A prefeitura demonstrou interesse em articular um plano de gestão para o patrimônio arqueológico municipal” – informou o instituto. O plano deve contemplar o reconhecimento e o estabelecimento de critérios de salvaguarda para todos os sítios arqueológicos registrados pelo Iphan no município. Ele também deve apresentar providências para a preservação in situ – ou seja, no local – dos enterramentos que porventura ainda estejam conservados, desde que localizados em área fora da zona imediata ao mar. Foi recomendada a delimitação do sítio, a partir de metodologia interventiva, a avaliação do estado de conservação e a sinalização apropriada. (Continua após a publicidade)

De acordo com o “Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil”, coordenado pelo Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI) da Universidade Federal Fluminense, a localidade também conhecida como “porto de Manguinhos” foi um importante local de desembarque clandestino de africanos mesmo após 1850. Além dos traficantes de escravos de São João da Barra, vila à qual pertencia as praias de Manguinhos e Buena, a região também era utilizada para desembarque de africanos por traficantes de Quissamã, Bom Sucesso, Carapebus e Macaé. As informações transmitidas ao longo dos anos pela população dão conta de que ao fim da viagem, os escravos eram postos em quarentena nas propriedades de dono de terras e traficante de escravos. Os que não resistiam e faleciam eram enterrados em valas comuns, sem sepultura ou qualquer tipo de identificação. “Como local de memória sensível, o sítio registra a dor e o sofrimento de um período trágico da história nacional” – ressaltou o Iphan.

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