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Lixo nuclear em São Fidélis: drama ambiental esquecido

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Usinas de Angra

A questão nuclear no Norte e Noroeste Fluminense remonta a 1979, quando rumores veiculados pela imprensa deram conta de que o Governo Federal pretendia depositar os rejeitos produzidos pela usina nuclear de Angra 1 na localidade de Buena, município de São João da Barra, hoje São Francisco de Itabapoana, onde ainda funciona uma usina de extração de monazita e de outras terras rara, ou em outro local da região a ser definido. Em várias ocasiões, esta notícia voltou a circular.

Paralelamente, a Usina da Praia (UPRA), em Buena, além de apresentar uma série de irregularidades em seu funcionamento, mantinha também enterrados em seu pátio 28 tambores contendo material radioativo. Por esses motivos, a usina teve seu funcionamento paralisado pela Curadoria Estadual do Meio Ambiente, em dezembro de 1986, até que tomasse as providências necessárias e desenterrasse os tambores. Isso sem falar nos danos ambientais que a operação da usina acarreta, com a destruição de praias e lagoas (cf. Centro Norte Fluminense para Conservação da Natureza – Diagnóstico ambiental da região Norte-Noroeste Fluminense e atuação da entidade (1977-1991). Campos dos Goitacazes: CNFCN, 1991).

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Cachoeira da Bela Joana

O que, no entanto, provocou uma mobilização comunitária no município de São Fidélis foi o mapa divulgado pelo presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Rex Nazaré, em outubro de 1987, apontando 18 áreas especiais em oito Estados da Federação apropriadas para a deposição de rejeitos nucleares. A “Região de Interesse 17”, constante do mapa, englobava os municípios de Santo Antônio de Pádua, Cambuci e São Fidélis. Detalhando mais, tudo indicava que a escolha recaía sobre a Serra da Bela Joana, entre os municípios de São Fidélis e Campos dos Goytacazes. Rex Nazaré anunciaria ainda que a intenção da CNEN era deixar a cada Estado o encargo de eventuais soluções para os seus rejeitos nucleares e, mesmo com a escolha pelo Congresso Nacional de um único ponto para a destinação dos resíduos radioativos, o Estado do Rio de Janeiro continuava sendo o principal candidato (O Globo. Rio de Janeiro, 13/11/87; e Folha da Manhã. Campos dos Goytacazes, 14/11/87).

Fotos: Arquivo/divulgação

Com a notícia, a comunidade de São Fidélis iniciou uma mobilização de protesto. O comércio cerrou suas portas duas horas mais cedo. Luís Pontes, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Fidélis, investiu duramente contra o CNEN. O Prefeito Guilherme Tito de Azevedo recorreu ao Senador José Richa, nascido em São Fidélis, pedindo seu apoio e viajou ao município vizinho de Itaperuna, onde o Governador do Estado, Wellington Moreira Franco, se encontrava em visita, para com ele ter uma entrevista. Como resposta, o Governador emitiu nota oficial estabelecendo normas sobre a deposição do lixo atômico no território fluminense (O Globo. Rio de Janeiro, 14/11/87; e Folha da Manhã. Campos dos Goytacazes, 14/11/87). Na noite desse mesmo dia, 13 de novembro de 1987, promoveu-se uma concentração de repúdio ao órgão federal na principal Praça de São Fidélis, segundo a imprensa com cerca de cinco mil pessoas. Presentes o Prefeito e os Vereadores (Folha da Manhã. Campos dos Goytacazes, 18/11/87).

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Guilherme Tito lutou para que o lixo nuclear não fosse depositado em São Fidélis

O movimento não parou aí. Hipotecando apoio a ele, os Prefeitos de Natividade, Murilo Alves Ribeiro; de Cambuci, Oswaldo Botelho; de Miracema, Ivany Samell; e de Porciúncula, Antônio Monteiro, repudiaram a intenção da CNEN. No dia 17 de novembro, uma caravana de representantes comunitários de São Fidélis fez nova manifestação pública, tendo à frente o prefeito do município e o senador José Richa, dessa vez diante do Palácio Guanabara, sede do Governo Estadual. Na ocasião, o Governador Moreira Franco sancionou projeto de lei do Deputado Estadual Djanir Azevedo proibindo a instalação de depósitos de resíduos nucleares em qualquer parte do território do Estado do Rio (Folha da Manhã. Campos dos Goytacazes, 18/11/87). Como no movimento em prol da mudança de captação d’água em Campos dos Goytacazes, houve quem retratasse a luta comunitária em verso. Nesse caso, foi o poeta fidelense Antonio Roberto Fernandes:

Nesta hora em que o mundo se espanta
ante o horror do fantasma da fome,
viva a terra que dá o alimento
que a grande cidade consome.

Implantar nesta terra bendita
sepulturas de lixo nuclear
é um ato impensado e indecente
que seu povo não pode aceitar.

São Fidélis e o Norte do Estado
sempre foram a roça, o quintal,
onde joga-se lixo e se estende
roupa velha, a secar, no varal.

É preciso acabar com essa história.
Temos todos direitos iguais.
Somos homens que pensam, produzem
e já pagam impostos demais.

São Fidélis, de fato, precisa
é de apoio à melhor produção.
Nossa terra é de berços, celeiros,
mas de túmulo atômico… Não!
(Folha da Manhã. Campos dos Goytacazes, 18/11/87).

A documentação existente sobre esse breve e intenso movimento consiste basicamente dos jornais de Campos dos Goytacazes e do Rio de Janeiro. Deve-se também atentar para os anais da Câmara de Vereadores e para o arquivo da Prefeitura. O arquivo do Centro Norte Fluminense para Conservação da Natureza apresenta a vantagem de reunir o que de fundamental foi publicado na imprensa. Vários atores desse pequeno drama ambiental já se foram, mas ainda ficou alguém para falar e lembrar-se dele.

Artigo: Ambientalista Arthur Soffiati.

SFn

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