sábado , 10 dezembro 2016
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Moradores de rua de São Fidélis se ajudam para lidarem com a fome e o frio

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Fotos: Matheus Berriel.

É mais um começo de tarde em São Fidélis. O cenário é a rodoviária, o coração da cidade, ao lado da Praça Guilherme Tito de Azevedo. Enquanto centenas de pessoas pegam seus ônibus e tomam rumos distintos, do outro lado da rua há pessoas sem terem para onde ir. Com sonhos, mas sem rumo algum. Recentemente, vem aumentando no município o número dos moradores de rua, que tantas vezes passam desapercebidos pelos olhos da população. Dois já morreram no local.

Com a chegada do inverno, um caso chamou atenção: o de Maria Fidelina de Souza Rosa – conhecida como Lindalva Pereira da Silva -, de 69 anos, que dorme em um colchão estendido na rodoviária, escondendo o frio com poucos panos.

5“Sempre morei em São Fidélis. Eu morava na Chatuba, mas minha irmã se aborreceu comigo e eu vim para cá. Estou morando na rua há três anos. Tem umas pessoas que gostam de mexer, implicar, mas eu não dou confiança.”- disse Maria Fidelina, que também já morou embaixo da ponte. “Meu filho está com o pai, não quer ficar comigo. Ele já é adulto, às vezes me procura e fica bravo comigo. Era melhor quando eu morava com minha irmã, mas não adianta mais. Já tentei reconciliar, mas ela não aceitou”, contou.

Mesmo causando bastante incômodo, para a moradora de rua o frio não é o maior problema; o pior é quando a fome aperta.

“Quando aparece alguma coisa, eu como. Se não aparecer, eu peço um café com leite, um pão. O pessoal aqui dos quiosques (da rodoviária), todo mundo me tratam bem. O frio tem sido complicado, mas dá para suportar”, relatou Maria Fidelina, que disse ter sido procurada por uma representante da prefeitura, que pegou seus dados e informou que veria uma forma de ajudar, quem sabe com uma moradia. Já se passou um mês e ainda não houve um retorno com a esperada ajuda.

Em meio ao frio e a fome, a solidariedade se faz presente. Minutos antes de conversar com o SF Notícias, Maria Fidelina estava ajudando outro morador de rua, Genevaldo dos Santos Rodrigues, de 54 anos, que passou mal. “A pressão do Genevaldo caiu, eu tive que colocar ele para deitar e falei que ia conseguir comida para a gente”, contou. Inicialmente constrangido, Genevaldo se emocionou ao lembrar dos motivos que o fizeram ir morar na rua. Perguntado sobre quais eram os motivos, preferiu não dizer. As lágimas falaram mais que as palavras.

“Infelizmente, essa pergunta eu não vou poder te responder. Acontecem certas coisas na vida da gente, que só a gente deve guardar. Mas eu não gosto de muito contato com alguns parentes meus, prefiro ficar aqui sozinho. Meu parente é Jesus, sou crente a Deus. Tenho meus amigos, que também são como meus parentes”, disse o morador de rua, que tem uma casa na Ipuca, mas alugou-a por R$ 400, sua única renda, que usa para se alimentar e colaborar com os outros moradores de rua.

“Eu não posso morar lá, porque é o único trocadinho que eu tenho. A casa é alugada por R$ 400, e com aquilo eu compro minha comida, compro meu cigarro. Prefiro viver assim. Se eu for morar lá, estou morto. A casa está com cinco anos de IPTU atrasado, o governo já cobrou, e eu entrei na justiça dizendo que não posso pagar. Estou desempregado, aqui não tem emprego. Eles fazem o que quiserem. Se a Prefeitura quiser, ela pode ajudar diminuindo esse imposto. Minha casinha é um barraco, tem uma sala e um quarto, e tenho que pagar R$ 400 de IPTU. Se eu pagar, vou morrer de fome. Hoje comi duas coxinhas, minha comida é essa. Para comer em um restaurante, vou pagar caro. A coxinha eu compro por R$ 2. Eu sei que a pessoa não pode ficar sem comida. Quando eu tenho um dinheirinho a mais, vou em um restaurante e almoço. Mas, hoje mesmo, estou duro. Bebo uma água e vou levando assim” contou Genevaldo, visivelmente emocionado.

Pai de dois filhos, ambos adultos, o morador, que é natural de Barro Branco, zona rural de São Fidélis, guarda lembranças dos tempos em que morava com a família no interior. Apesar de já ter trabalhado em cidades como Rio de Janeiro, Cabo Frio e até Brasília, é da vida humilde em Barro Branco que ele sente mais saudade. O medo de perder a liberdade é maior que o frio e a fome.

“Um dos meus irmãos disse que quer me internar em uma clínica em Pádua, mas eu acho que lá vou ficar preso. Não sou passarinho para ficar em uma gaiola. Não vou de jeito nenhum. A não ser que lá tenha algum lugar pra eu trabalhar. Sinto falta de quando eu morava na roça. Eu tinha cem galinhas, porcos, tirava leite. Meu sonho era ter uma propriedade para poder criar galinhas e porcos, vocês nunca mais me veriam aqui. Tive um problema pessoal, e ali comecei a beber. Já são uns dez anos que eu bebo. Se conseguisse uma oportunidade, pararia. Tem hora que eu bebo pra esquecer um pouco, mas eu pararia e ficava tranquilo se pudesse recomeçar tudo na minha vida. Falo para os jovens não fumarem, não beberem, não usarem drogas, porque isso não presta. Eu não tenho muito estudo porque na roça a gente só estudava até a quarta série, mas sou um sujeito sábio, instruído. Tenho a experiência da vida. Convivi com muita gente boa e ruim. Dormi em uma empresa com trinta homens, onde um chegava bêbado e queria matar o outro. Sou um cara vivido, aprendi com a vida. Tomo minha cachacinha, mas quando tenho que parar, eu seguro o pé. Bebo e fumo porque diminui a fome.”, disse, com a lucidez que o momento sem a bebida lhe proporcionou.

Das lembranças da vida em Barro Branco, a saudade da mãe é grande. Ela chegou na rua a morar com o filho, mas preferiu voltar para o interior do município. Já Genevaldo, por não gostar de incomodar e de dar trabalho, optou por continuar em São Fidélis e viver de seu aluguel, mesmo com todas as dificuldades.

“Não é a pior fase da minha vida, não. Tenho oito irmãos. Na roça, a gente comia brotos de bambu e de abóbora. Como que meus pais iam sustentar nove filhos? Já passei momentos piores do que esse. Hoje, não posso falar da maioria dos meus irmãos, porque eles não vivem aqui. Um foi pra Natal, outro para Cabo Frio, outro no Rio, já tem uns 15 anos que não vejo a maioria. Meu pai é morto e minha mãe mora em Barro Branco. Chegou a morar na rua comigo, mas voltou para lá há uns dois anos. O tempo vai passando e a gente vai se acostumando com a saudade, mas, se eu pudesse, com certeza daria um abraço nela. Quando morava comigo, ela me cobria. Mãe é mãe. Agora, ela foi pra roça e me largou sozinho aqui. Então eu durmo perto da rodoviária, ou embaixo da ponte. Minha sorte é essa blusa que estou vestindo, porque tem feito muito frio. Eu não peço nada a ninguém, tenho muita vergonha de pedir alguma coisa a qualquer pessoa. Prefiro ir levando. Tem gente que é descarado, que pede coberta, comida, uma cachaça, um cigarro. Eu nunca peço nada, só compro quando tenho o meu dinheiro, lá do aluguel”, completou.

Apesar das condições em que vive, o exercício da cidadania mantém viva a dignidade de Genevaldo, que disse nunca ter deixado de votar, tendo inclusive transferido seu título de Barro Branco para a zona eleitoral do Colégio Estadual Elvídio Costa, em São Fidélis. Junto do título, guarda também os outros documentos, pois sabe que sempre pode precisar deles. Apaixonado pelo Botafogo, também alimenta a paixão pelo futebol. Sempre que dá, acompanha os resultados dos clubes cariocas vendo algum jornal e conversando com quem passa pela rodoviária. Nessas conversas, recorda da época em que jogava futebol.

“Nos domingos, quando dava 10h, eu pedia a mulher para fazer o almoço para eu ir jogar. Disputava vários campeonatos. Dos times em que joguei, o do meu coração sempre foi o Barro Branco. Hoje, acabou tudo. Quando eu jogava, a bola vinha em mim e grudava onde batia. Infelizmente, para jogar como profissional, você tem que ter dinheiro, um bom empresário. Tenho vários colegas que ‘comiam a bola’, mas a gente não tinha incentivo de ninguém. O Barro Branco era um time de tradição, uma seleção. Salamão, falecido Lecil, Evaldo Carola, que era um grande centro-avante… Vinhamos jogar na cidade e ganhávamos dos times daqui. No mês passado, sentei lá no campo do Estrela (na Ipuca) e assisti a final do Campeonato Rural para matar a saudade.”, disse Genevaldo, que foi a convite da irmã para o Rio de Janeiro, mas preferiu ficar na rua para não abandonar as amizades que lhe restam.

2“Minha irmã tem um apartamento em Ipanema. O marido dela está bem velhinho, então ela veio aqui e me levou. Mas eu não consigo viver em um lugar onde não conheço ninguém. Eu tinha comida, ela me dava meu cigarro, não deixou faltar nada, mas eu não conseguia ficar lá. Fiquei três dias e voltei. Aqui eu bato papo com os amigos, tem coisa mais maravilhosa que isso? Lá no Rio, não dá para fazer amizade. Você não sabe em quem pode confiar, é muita gente covarde. Aqui é ruim para ganhar dinheiro, pois não tem emprego, as empresas foram embora, mas é muito melhor para viver. Durmo embaixo da árvore, levanto de manhã e venho conversar com meus amigos. Todo mundo me conhece. Se a Prefeitura ou alguém quiser me ajudar, eu vou. Mas vou e levo minha turma, meus companheiros, porque aí não fico sozinho. Principalmente se tiver algum lugar para a gente poder plantar uma verdura, criar umas galinhas. Gosto muito disso. Sou do interior, cresci assim. Se quiserem me ajudar, me deem um espaço para trabalhar”, concluiu Genevaldo, deixando uma lição para todos.

“A pessoa pode ser pobre, mas não pode ser burra. A gente vai aprendendo com a vida. Dá um deslize, leva um tranco e vai aprendendo o que é certo e o que é errado, qual caminho deve seguir. O homem tem que plantar frutos para colher frutos. Se você plantar espinhos, vai colher espinhos. Eu nunca fiz isso. Sempre procuro plantar um pé de manga ou outra fruta, porque vai dar alguma coisa para eu comer. Nunca procurei problema com ninguém. Assim, nós vamos vivendo”, finalizou.

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Como Maria Fidelina e Genevaldo, há outras pessoas de bem nas ruas, com histórias de vida que servem de exemplo, priorizando valores como a amizade e a solidariedade. Quem tiver interesse em ajudar os moradores de rua fidelenses, entre em contato com o SF Notícias pelo telefone (22) 99793-8976 para realizar uma doação de agasalho, cobertor ou alimento não perecível. O material que for arrecadado será entregue aos necessitados.

SFn

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