quarta-feira , 7 dezembro 2016
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São Fidélis: ambiente, economia e perspectiva de desenvolvimento parte II

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Fotos: Aristides Soffiati

Hoje o SF Notícias exibi a segunda parte do artigo “São Fidélis: ambiente, economia e perspectiva de desenvolvimento”, feito pelo ambientalista Aristides Arthur Sofiatti, e cedido com exclusividade ao nosso veículo de comunicação.

Hoje Aristides começa falando sobre as primeiras terras invadias pelos europeus no Norte e Noroeste Fluminense.

A conquista e a colonização européias: O extrativismo

A primeira área do futuro Norte Noroeste Fluminense a ser invadida por europeus, no século XVI, foi o tabuleiro e a planície aluvial do Rio Itabapoana. Pero de Góis, então donatário da Capitania de São Tomé, instalou um povoado pouco ao sul do Rio Itabapoana, então chamado de Managé, chegando até a zona serrana pelo vale do rio, onde encontrou uma queda d’água, junto à qual, segundo relato seu, ergueu um engenho. Assim, a cana foi o primeiro produto agrícola a ser introduzido na região, embora esta primeira experiência tenha fracassado por falta de recursos financeiros e por resistência dos índios Goitacás. A segunda tentativa, feita por seu filho Gil de Góis, também entre os Rios Itabapoana e Itapemirim, não deu bons resultados, levando o donatário a devolver a capitania à Coroa portuguesa.

A terceira tentativa foi empreendida por sete fidalgos, os Sete Capitães, que ocuparam os campos nativos da planície aluvial do futuro norte fluminense com gado. Começou, então, uma colonização contínua do território antes habitado por povos da nação macro-jê. A zona serrana, naquele momento de acesso difícil por conta da topografia, das densas florestas e da resistência dos indígenas, só começou a ser incorporada à economia de mercado no século XVIII. A primeira riqueza vislumbrada pelos europeus e seus descendentes foram as madeiras nobres. Pouco a pouco, o extrativismo vegetal foi abrindo clareiras para a agricultura e a pecuária. Houve muito desperdício com o uso do fogo como a mais eficiente arma para a supressão da vegetação nativa. Para se ter uma ideia da devastação, registre-se que, nos século XVI, estimava-se uma cobertura florestal de 100% para o atual noroeste fluminense. Atualmente, esta manta verde foi reduzida a pífio 0,5%. No território correspondente a Aperibé, o desmatamento foi de 100%.

6Agricultura
Não apenas a agricultura contribui para a supressão vegetal nativa e para o empobrecimento da biodiversidade como também tem concorrido para agravar as agressões ambientais. O principal cultivo é o da cana-de-açúcar, mormente em função da usina de Pureza, hoje com suas atividades encerradas. Em vistoria efetuada, surpreende que a cana tenha substituído totalmente as florestas em encostas e topos de morros e em margens de rios, considerados áreas de preservação permanente. Este procedimento contribui significativamente para a erosão, para a turbidez (sedimentos em suspensão) dos cursos d’água, para o assoreamento (deposição de sedimentos no leito dos rios), para o fim das nascentes e para a extinção regional de espécies animais nativas, concorrendo para esta última também a caça.

Mas não apenas estes impactos a cultura de cana causa ao meio ambiente. A prática predatória da queimada para despir o canavial de sua folhagem e facilitar o corte acarreta, entre outras consequências, o despejo de gases e partículas na atmosfera, a queima da fertilidade do solo, a eliminação ou a expulsão de invertebrados e pequenos vertebrados do canavial e a redução do teor de sacarose. Na fase industrial, a lavagem da cana queimada, antes da moagem, carreia matéria orgânica para os rios, agravando a poluição.

Para compensar a fertilidade natural do solo e para eliminar os concorrentes da cana, os plantadores empregam agrotóxicos e fertilizantes químicos, contribuindo para contaminar o meio ambiente. Na fase industrial, a queima do bagaço de cana polui a atmosfera com gases e partículas, enquanto a fabricação de álcool gera um volume considerável de vinhoto, substância que causa redução de oxigênio dissolvido na água e concorre para a mortandade de peixes.

Além da cana, em São Fidélis também existe a produção de hortaliças e de tomate, principalmente, ambas mais praticadas por pequenos proprietários rurais e produtores. Ambas as atividades se voltam mais para o mercado municipal e regional. Cabe uma pesquisa para verificar o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos nestas lavouras, já que, pelo menos a tomaticultura, é praticada com uso intensivo de agrotóxicos, como acontece em São José de Ubá.

5Pecuária
A pecuária bovina leiteira e de corte ocupa lugar destacado na economia de São Fidélis, ao lado da agroindústria sucroalcooleira. Isto não significa que a atividade econômica seja expressiva e desenvolvida. Bem ao contrário, ela tem causado fortes impactos ambientais. A abertura de pastos exigiu a supressão de florestas nativas. O pastejo em encostas e topos de morro, áreas de preservação permanente, produz erosão laminar, principalmente, além de queimar energia do gado e roubar-lhe peso ou leite. Há muitas áreas de preservação permanente totalmente devastadas sem nenhuma iniciativa governamental ou privada para recompor-lhes os ecossistemas vegetais nativos.

Apicultura
Em São Fidélis, a apicultura é uma atividade tradicional e extensiva que durante muito tempo contribui para suplementar a renda do trabalhador ou do pequeno proprietário rural. O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), desenvolvido pelo governo federal em parceria com os governos estaduais e municipais, atentou para o potencial econômico da apicultura em São Fidélis. Criou, então, o Projeto Colméia, com base nos princípios do desenvolvimento sustentável.

Originalmente, a apicultura aproveitava-se da abelha africanizada e de plantas nativas espontâneas que crescem nos pastos das terras devastadas do município. As principais são o morrão-de-candeia (Julocroton trequiter), que floresce na estação das chuvas, entre dezembro e março, e a erva-canudo (Hytis suaveolens). Ambas propiciam a produção de um mel claro, cristalino e de excelente sabor. Há ainda o Eucaliptus spp e o assa-peixe (Veronia Pholyanthes).

7O referido projeto foi iniciado em dezembro de 2001, tendo em vista implementar três ações: promover cursos para capacitação técnica dos apicultores, fornecer equipamentos necessários para otimizar a produção do mel e incentivar as vendas através de campanhas publicitárias. Um ano depois, os resultados mostraram-se bastante promissores. O projeto beneficiou 360 pessoas diretamente e 450 indiretamente. Aos apicultores tradicionais, somaram-se mais 76. A produção aumentou em torno de 15%, totalizando o volume de 17 toneladas em 2002, com cerca de 25% no aumento de vendas. Os resultados foram tão promissores que o Projeto Colméia evoluiu para a Associação Apícola do Norte Fluminense, com 112 associados, ou seja, 66% dos produtores. Com a capacitação, novas perspectivas abriram-se para a atividade além do mel, como o própolis, a cera, o pólen, velas e sabonetes de mel. Foi criada uma marca para o produto – Mel da Terra.

Do ponto de vista social, houve aumento de renda familiar, elevação da auto-estima do produtor, sobretudo dos proprietários de terras, melhoria da qualidade de vida e maior preocupação com a proteção do meio ambiente.
No entanto, algumas ações podem ser implementadas para otimizar a atividade apícola. Otimizar não equivale a maximizar. Otimizar significa promover o desenvolvimento em consonância com os limites dos ecossistemas, visando também a sua revitalização. Por outro lado, a maximização se insere nos quadros de uma economia de mercado que visa tão somente o lucro.

SFn