Sem carro oficial, segurança e infraestrutura: Conselho Tutelar de Cambuci enfrenta diversos problemas Segundo o órgão, décimo terceiro está atrasado, adicional noturno foi cortado, férias estão vencidas, entre outros problemas

Segundo o órgão, décimo terceiro está atrasado, adicional noturno foi cortado, férias estão vencidas, entre outros problemas

Sem carro, conselheiras chegaram a usar uma bicicleta para atender as demandas, inclusive uma tentativa de suicídio

Um trabalho de extrema importância, que tem como objetivo zelar pelos direitos das crianças e adolescentes. Indispensável, principalmente com o grande registro de crimes contra os menores e crescimento da depressão entre os adolescentes, por exemplo. E que, infelizmente, não está sendo valorizado em Cambuci, no Noroeste Fluminense.

São vários os problemas enfrentados pelo Conselho Tutelar do município. O abandono do poder público está prejudicando dezenas de famílias, que muitas vezes, ficam sem atendimento. O órgão está sem um veículo próprio desde o dia 6 de fevereiro, quando o carro que tinha foi encaminhado para oficina. Muito antes, o veículo já apresentava problemas, como relataram conselheiras que preferiram não se identificar. Por diversas vezes, foram enviados ofícios à Prefeitura, solicitando a manutenção do veículo, mas os problemas se acumularam até o mesmo parar de funcionar. O veículo está parado em uma oficina.

Para realizar os atendimentos, elas dependem de um veículo da Guarda Municipal, que só foi oferecido mediante reclamações da equipe. Entretanto, o carro atende outras demandas, e o Conselho precisa aguardar. Em situações de emergência, a situação se complica e já chegou ao ponto das conselheiras terem que atender ocorrências de bicicleta, até mesmo uma tentativa de suicídio.

“Fica difícil porque às vezes a gente tem que acionar outras pessoas e tem a nossa segurança também, porque a gente trabalha com periculosidade. É um trabalho sigiloso” – ressaltou uma profissional. A sede também não está dentro dos requisitos da lei. “Segundo o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) tem uma série de exigências, dois banheiros, a gente tem um, sete cômodos – sendo duas salas de atendimento – a gente só tem uma e outra que é sala de espera/cozinha, entre outras coisas” – explicam.

Sede do Conselho fica no mesmo terreno que o CRAS

O local precisa ainda ter privacidade, oferecendo segurança aos atendidos. “Aqui do lado funciona o CRAS, o barulho da banda é muito alto, como não tem muro às vezes batem na janela, abrem a janela, sentam aqui do lado, então não tem privacidade, não tem sigilo” – afirmam. A falta de outros profissionais, como uma equipe técnica, uma psicóloga, secretária administrativa, funcionários da limpeza, também acabam prejudicando o trabalho das conselheiras, que precisam assumir outras funções, além da designada.

Décimo terceiro atrasado, salário menor do que o salário mínimo e sem reajuste há anos, adicional noturno – que foi retirado sem qualquer explicação – diárias não pagas e férias vencidas são outros problemas que as conselheiras enfrentam. “Não tirar férias, com o trabalho que a gente tem, as demandas são muitas, nosso psicológico fica afetado. Precisa de suplente para cobrir, tem uma esperando, mas não é chamada” – contam. Uma das conselheiras afirma que após pagar o aluguel, ainda teve que pegar dinheiro emprestado para pagar outras coisas.

Mesmo em meio a tantos problemas, o grupo só paralisou as atividades – fora da sede – e por um curto período. “Nós paralisamos quando o carro deu problema, comunicamos ao MP que estávamos parando com os atendimentos fora da sede. Mas é difícil, a pessoa liga, a gente sabe que precisa de ajuda, a gente não consegue ficar sem ir. Tivemos que acatar, ficar pedindo à Guarda, mas quando é emergência como você espera? O município é extenso, os distritos são distantes”.

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Elas afirmam que o Ministério Público está ciente da situação. “Conversamos com o promotor, sobre a situação, ele já tem um Termo de Ajuste de Conduta que foi aplicado para a Prefeitura em relação a outras coisas também, que era até um valor acho que de R$ 300 mil. O promotor já veio aqui depois da reinauguração da sede” – ainda assim a situação segue piorando.

Trabalhando praticamente 24h por dia, com saídas de madrugada, correndo riscos, elas só desejam trabalhar de uma forma mais digna, com os meios necessários para que possam atender a população da melhor forma. “A sociedade não fica sabendo que o Conselho trabalha. Muitas vezes reclamam, que o Conselho não foi, mas tem hora que a gente não consegue o carro. E o nosso salário, a gente não tá reclamando de trabalhar, a gente queria ter um pouquinho mais de respeito pelo nosso trabalho. Estamos aqui por amor” – disse uma delas.

“Chamou a gente vai, vai com muito amor mesmo, porque a gente não tá para se exibir não, porque quem vai querer se exibir no Conselho Tutelar? Aonde é um trabalho de risco, nem toda família aceita o conselho na casa. Uma colega já foi agredida. A gente trabalha com muito amor, a gente tá vendo muita coisa acontecendo, vocês publicaram sobre a Boneca Momo, isso aí é um pouco do que vocês viram, tem muito mais coisa”.

Nossa redação entrou em contato com Prefeitura de Cambuci. Nos foi passado um e-mail que seria de um assessor de comunicação, mas até o momento, nossos questionamentos não foram respondidos.


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