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Um lápis e um sonho: Fidelense se destaca na arte de desenhar

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Fotos: Matheus Almeida.

Entre os milhares moradores de São Fidélis, um cidadão vem se destacando pela arte de desenhar. Jhansey Oliveira, de 30 anos, como todo quase todo menino brasileiro, já teve o sonho de ser jogador de futebol. Quando menino, se inspirava em Romário, o “rei da grande área”, como ele descreve. Mas foi com o lápis na mão que Jhansey decidiu trilhar seu caminho.

– Eu comecei a gostar do desenho desde criança, na época do jardim de infância e na alfabetização, quando eu começava aprendendo as vogais. Ao invés de escrever, eu desenhava. E os professores sempre falavam, que quando eu crescesse, seria um artista. Acaba que eu entrei na escola, e era sempre a mesma coisa. Sempre eu estava desenhando, não prestava atenção nas matérias para desenhar. Isso eu fui querendo conhecer, aprimorar mais, e estou aí, fazendo os meus desenhos. – contou Jhansey.

Na fase de transição da adolescência para a vida adulta, o fidelense já trabalhou em bar, açougue, hotel, fez bicos de pintor, pedreiro, garçom, só que percebeu que seu ganha pão poderia ser o velho hobby: de fazer arte no papel e em outras superfícies.

– No ano de 2002 eu comecei a fazer pinturas. Comecei pelas camisas, meio que por diversão. Só que eu parei e pensei: Não aguento trabalhar pesado, então eu tenho que fazer alguma coisa pra ganhar dinheiro. Eu não vou me envolver com drogas, não vou roubar. Sabia que tinha que fazer alguma coisa pra sobreviver. Então eu peguei na casa da minha avó algumas camisas de políticas, antigas, e comecei a pintar. Dali as pessoas começaram a perguntar se eu pintava outras coisas. Fiz desenho em portão, que nunca tinha feito, chegava na hora e fazia. E fui assim. Há cinco anos que eu comecei fazendo esse trabalho de auto-retrato, os desenhos. As pessoas confundem caricatura com desenho realista. A caricatura é um desenho com efeitos, mais simples. Auto-retrato é feito só a lápis. Tenho também trabalhos em paredes, com grafites, como na quadra do Colégio Estadual, na antiga pizzaria do Roberto, no Anglo. Eu tive o dom, fui aperfeiçoando, com muita prática e força de vontade, até chegar nesse nível. – disse Jhansey.

Talentoso no que faz, o jovem logo começou a receber fotos e mais fotos para transformar em desenhos. O reconhecimento veio também, recentemente, numa oportunidade de trabalhar no Mais Educação. Jhansey deu aulas de grafite para crianças da Escola Municipal Mestra Maria Firmina, na Vila dos Coroados.

– Foi uma experiência legal, principalmente por trabalhar com crianças. A criança tem aquela coisa pura, então fiz um aprendizado legal. Lá fiz amizades, ensinei um pouco do que eu sei, porque não sei muita coisa. Muita gente pensa que o grafite é pichação. O grafite é arte, pichação é crime. É diferente. Apesar de que muitos pichadores, em matéria de mão de obra, são mais talentosos que muitos grafiteiros. Só que uns usam pelo lado mau, outros pelo lado bom. E é muito bom você ver as crianças trabalhando juntas, pintando, porque pode servir de espelho para alguém mais na frente. Lá no Maria Firmina nós pintamos um muro, pintamos durante a Copa do Mundo, fizemos vários trabalhos lá. – relembra.

unnamed (6)Com a viralização da internet e das redes sociais, o trabalho do fidelense passou a ser conhecido por mais pessoas. Jhansey usa seu perfil no facebook para postar todos os auto-retratos que faz, ao lado das fotos originais de onde foram tirados. Por ali também acontecem alguns pedidos de desenhos, que servem para alimentar o sonho de usar o lápis para ir mais além.

– A internet ajudou muito. É legal, porque as pessoas chegam, perguntam se eu sou o Jhansey grafiteiro, que faço os desenhos. Não é que eu esteja famoso, eu estou conhecido na cidade. A gente tem que pensar sempre alto, não é falta de humildade. Eu quero chegar ao topo. Divulgar o trabalho pela cidade, pela região, até o Brasil. Se Papai do céu permitir, até no mundo. Eu recebo alguns apoios, sim. Poucos, mas recebo. São apoios mais de incentivo, não financeiro. Hoje eu cobro pela quantidade de pessoas no desenho, ou pelo tamanho do desenho. Eu trabalho com a folhas A4 e A3. – disse Jhansey.

Uma amostra do reconhecimento dos fidelenses aconteceu recentemente, enquanto o artista estava na fila de uma padaria, no Centro da cidade, esperando para comprar um lanche, quando foi cutucado por uma pessoa. Ao olhar para trás, Jhansey viu que se tratava de um garoto, de uns 10 anos, que perguntou se ele desenhava, porque achava que conhecia desenhos dele. Com a afirmativa de Jhansey, o garoto pediu para tirar uma foto com ele.

– Eu parei, pensei, olhei para o garoto e disse que não sou famoso, não sou artista. Ele me disse que sou artista, sim. Aquilo foi um estímulo a mais, porque a criança é pura, não mente. Vejo que foi Deus usando aquela criança pra eu ter um estímulo a mais, não desistir do que eu faço. – relatou Jhansey, que sempre demonstra gratidão com as pessoas que acompanham e ajuda na divulgação de suas artes.

– Tudo na vida é difícil, nada é fácil. Mas, com força de vontade, humildade, sabendo respeitar as pessoas, a gente vai longe. Eu gostaria de agradecer aos que me ajudam, que me incentivam. Dinheiro não é tudo. Tem muitas pessoas que têm os meus trabalhos, meus desenhos em suas paredes, e eu nunca conversei. Normalmente, eu tenho um lugar que eu deixo meus desenhos, na cidade. Deixo o nome da pessoa, a pessoa vai lá, paga e leva. Mas eu fiz muitas amizades. Uma dessas amizades foi com a Gilza Nunes, que eu não conhecia, mas fiz um desenho dela, e hoje é uma das pessoas que mais me incentiva, me ajuda a divulgar os trabalhos, sem interesse de ganhar nada. Tem também o amigo Elmo, minha ex-cunhada Viviane, que sempre me ajudam a vencer as dificuldades da vida. Porque um artista sofre. Os artistas do Brasil sofrem. E hoje, eu só vivo disso. Consigo sobreviver disso, graças a Deus. Então tenho que agradecer às pessoas que me ajudam e incentivam para alcançar um patamar maior.

Além de, hoje, abrir portas para o futuro melhor, a arte já serviu como válvula de escape para superar as lamentações da vida. Numa época em que muitos jovens se perdem nos caminhos das drogas, surpreende a história de Jhansey Oliveira, um garoto de sobrenome simples e de origem humilde, que enxergou no desenho uma oportunidade de não ser só mas um entre tantos outras da sua geração.

– Eu fui criado num lar que, graças a Deus, nunca passamos necessidades. Mas eu fui criado sem pai, só pela mãe e pela avó, então é uma coisa complicada. A maioria das pessoas, hoje em dia, vê o jovem na criminalidade, fazendo besteira, e fala que o cara é ruim, é um mau elemento, mas muitas vezes não sabe o que o cara passou. Não significa que, por ser criado sem um pai, o sujeito tenha motivo para ser bandido, marginal. Mas é um passo. Um exemplo é quando você vê na televisão um cidadão que roubou, matou, e os repórteres perguntam o porquê, mas não perguntam como foi a criação, se teve pai, se teve mãe. Não é que justifica o erro, mas é um passo. Então, eu tinha uma revolta, mas hoje em dia eu anulo essa revolta com os meus trabalhos. Eu uso como inspiração para os meu desenhos, é um combustível a mais. Eu já tive oportunidade de entrar nesse caminho errado, mas graças a Deus sempre fui bem caseiro, nunca bebi, nunca fumei, nunca usei cigarro. Meu vício é só desenhar. – finalizou.

SFn

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